segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Passos na Escada


Era tarde,
Já se passava de tantas da noite,
Estava no meu quarto a pensar.
Me sentia inquieto dentro de mim.
E havia um peso de algo a mais no meu quarto.
E eis que naquele silêncio melancólico,
No momento em que as estrelas somente brilhavam,
Uma sombra entrou no meu quarto,
Veio vindo como quem não queria nada,
Pousou uma taça de vinho no criado mudo.
Me tocou,
Me olhou no mais profundo do meu ser,
Me beijou na face,
E novamente me olhou.
Depois sorriu para mim,
Abaixou-se mais uma vez e me abraçou.
Me apertou com tanto afago,
Me consolou.
Voltou a pegar a sua taça,
Deu a volta em minha cama,
Andava como se estivesse desfilando numa passarela,
Era linda.
Depois colocou aquele sorriso que só ela tinha,
Disse adeus com um aceno de cabeça
Me acalmou.
Caminhou até a porta,
Segurou na mão de sua filha,
Ouvi seus passos na escada,
Depois não escutei mais nada.
E partiu.
Em seguida dormi em paz,
Pleno,
Sereno.
E sei que esse sentimento vai perdurar.


Texto: Passos na Escada,
De: Diógenes Ramos.
Dedicado a Cleonice e Mayra
  

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

O Amor Bateu em Minha Porta



O amor bateu em minha porta,
Veio cabisbaixo,
Sorrateiro,
Totalmente instruído.
Ele entra e sai quando bem entende,
Balança o cabelo das mulheres,
Tira o cinto dos homens.
Seja como for, o amor é o amor e isso basta.
Não fique triste,
Hoje tem até filme de romance no canal aberto.
O amor bateu em minha porta,
Fui abrir e quase fiquei cego,
Ele entrou pelos meus olhos,
Desceu a garganta com sabor suave,
Passeou pelos meus rins,
Fígado,
Intestino.
Fiquei completamente satisfeito.
Espere!
O amor saltou pela janela,
Eu acho que ele vai se machucar,
E feridas do amor às vezes não sara nunca,
Algumas vezes sara logo.
Mas isso é o amor,
Troca de beijos e línguas,
Viagens sem sair do lugar,
Cumplicidades,
Brigas também existem,
Mas essa é a grandeza do amor,
Ele é incompreensível. 


Texto: O Amor Bateu em Minha Porta
De: Diógenes Ramos


terça-feira, 24 de novembro de 2015

O Veado e o Deputado



Por essa o tal deputado não esperava,
Homem casado e com três filhos nas costas,
Usava o dinheiro do povo como bem queria.
Mas esse em especial,
Gostava de comer veadinhos as escondidas.
E foi numa dessas reuniões da vida,
Dessas que não chegam a decisão nenhuma,
Que ele viu ao longe um belo rapaz,
Pernas torneadas e bunda avantajada,
Peitoral aberto e sorriso descontraído.
Sem conter o seu impulso, logo se aproximou e disse:
Mas que jovem lindo,
E de cabelo liso ainda.
Vem garoto, vem ser minhas horas de reunião,
Vem que eu te mostro o que é ser quente,
Vem ser minha desculpa,
Vem ser meu motivo de mais compromissos e gastos desnecessários.
Te coloco em um apartamento, pago roupas, contas e você ficará à minha espera.
Vou ser teu chamego, teu eixo, teu caos,
Vem garoto e diz que quer ser meu,
Vem rebolar em mim, fazer acontecer, se mexer,
Mas minha esposa não pode saber,
Comigo tu vai esquecer trabalho, horários, favela.
Vem ser meu escravo, meu tormento, meu pasto,
Depois te levo para passear, gastar e até jantar.
Eu tenho dinheiro para te fazer o veado mais feliz desse mundo,
Comigo não irá se preocupar com nada.
Tenho grana para algumas vidas.
Mas terás que prometer que será só meu.
E ai quer vir?
Então depois de ouvir toda aquela asneira,
O jovem se levantou todo sorridente e disse:
Escute aqui meu senhor:
Não precisa fazer nada disso,
Pois sua corrupção natural não se cura trepando com nenhum veado,
Não vai ser um deputado bandido que vai curar essa ferida do país,
Senhor deputado assim como você,
Que mete a mão nos cofres públicos,
E roubam dinheiro de pessoas honestas como nós,
Dinheiro que reservamos para educar nossas crianças,
Que vai me comprar com sua lábia mal elaborada.
Escute aqui deputado:
Eu me lembro do esforço que fiz para estudar,
Das marmitas que levava, porque o dinheiro não dava para comer na rua,
Enquanto você se fartava com banquetes sem ter completado o ensino médio,
Tente escrever outra história deputado,
Porque não é me levando para jantar,
Ou me colocando em um apartamento e pagando minhas despesas,
Que seus erros serão redimidos,
Agora se afasta de mim,
E nunca mais insista nisso,
Pois o seu cheiro me enoja,
Sua habilidade de roubar vira meu estômago,
Porque deixar de ser um bandido, caro deputado, não é comendo um veado.


Texto: O Veado e o Deputado
De: Diógenes Ramos   


sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Me Espere



Espere um pouco,
Isso é sério mesmo?
Acho melhor você parar com essas coisas.
Por que me olha assim?
Está me olhando com um olhar de promessas,
E com esse leve sorriso no canto da boca de quem não quer nada.
Espere um pouco,
Mas é que eu tenho cicatrizes que a vida fez,
E as vezes evito fazer planos,
Pois não quero sofrer mais uma vez.
Espere mais um pouco,
Por que?
Porque quando te olho não quero ter você por alguns minutos,
E não quero ser mais um em sua cama.
Eu só me satisfaço com muito agora.
E quero mais momentos com você.
Você fala sério?
Mas é que eu tenho cicatrizes no meu peito,
E tenho medo de me arrepender,
Mas quando me olha assim eu não resisto.
É isso mesmo?
Então não espere mais nada,
Apenas não quero ser mais um em sua cama,
Estou indo então...
Me espere.


Texto: Me Espere
De: Diógenes Ramos

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Geração saúde



É sabido que a nossa geração é umas das mais saudáveis que já existiu no mundo. A expectativa de vida dos brasileiros em 2012 era de 74,6 anos, hoje essa expectativa aumentou para 80 anos. O que é muito bom, visto que as pessoas se preocupam muito mais com o seu corpo e sua saúde.
Podemos fazer uma avaliação dos nossos antepassados, na época em que eram jovens, com os jovens de agora e chegarmos a uma conclusão óbvia. Hoje há uma certa preocupação positiva em cuidar mais da saúde e do corpo físico do que antes.
As academias estão em seu estado de super lotação, pois todos querem alcançar o nível de corpo perfeito. Alcançarem a admiração de quem ainda está começando. Alcançar um corpo másculo cheio de contornos que causa inveja em muitos magrinhos que ainda tem preguiça de malhar para também se tornarem perfeitos aos padrões estabelecidos por essa sociedade que é a geração saúde.
Até ai tudo bem, pois eu também sou um adepto a um corpo saudável, não perfeito, mas quero me olhar no espelho e me sentir bem comigo mesmo.
Entretanto o que mais me assusta no mundo em que estamos vivendo é que os grandes pensadores como Shakespeare, Platão, Sócrates e tantos outros que fizeram história, já não existem mais e continuam ainda sendo os maiores que já existiram. E agora é onde entra minha pergunta: Será que no meio de nossa geração saúde não sairá nenhum pensador revolucionário que não se preocupa somente com os músculos do seu corpo?
Será que nossa geração saúde se tornou grandes na musculatura escultural e deixou a inteligência se definhar?
Não estou aqui fazendo apologia à nada e quero deixar isso muito claro, mas estou completamente assustado com nossas futuras gerações. Ontem estava treinando um pouco, pois gosto de estar bem como disse anteriormente e por descuido ouvi uma conversa de dois rapazes falando do que tomam e do que fazem para manter o corpo impecável. A conversa se estendeu por alguns minutos num português medíocre e “chulo” e isso me levou a ter medo dessa geração que estamos alimentando com suplementos.
Dificilmente as pessoas pegam livros para ler, falam sobre alguns assuntos que interferem na nossa vida e que deveriam ser levados mais a sério de maneira rasa. Vão as ruas protestar, mas no fundo não sabem o real motivo dos seus protestos. Deixam ser enganados porque ou o interesse pelo assunto é superficial ou de fato não sabem do que se tratam e deixam passar despercebidos.
Eu amo nossa geração saúde, mas tenho medo de que num futuro muito próximo estejamos fazendo o reverso da evolução humana.



Texto: Geração Saúde
De: Diógenes Ramos

terça-feira, 25 de agosto de 2015

O Animal



Estranhamente ontem eu vi um animal,
Fiquei horrorizado com a forma medíocre em que se encontrava.
Sentado na calçada, ele comia restos de algo indecifrável.
Não se preocupava com o que era,

Não separava nada,
Apenas queria saciar sua fome.
Fiquei parado no trânsito a observá-lo,
O animal estava completamente sujo,
Fedido,
Faminto.
As pessoas que passavam na calçada,
Andando próximas ao animal, não ligavam para ele,
Eles não tinham medo dele,
Era como se aquele animal fosse completamente invisível.
E o próprio animal, de tão esquecido, também se achava transparente.
Pela sujeira que tinha no seu corpo,
Tenho para mim que ele há muito não se banhava,
Quando o farol abriu,
Um carro buzinou atrás de mim e eu voltei a realidade,
A realidade de também esquecer aquela cena,
Como todas que passavam ali fizeram,
Mas o que mais me preocupava em vê-lo ali,
É que aquele animal se parecia com qualquer um de nós,

Com olhos, boca, nariz, braços e pernas.
Porque aquele animal era um homem.








Texto: O Animal,
De: Diógenes Ramos
Adaptação: O bicho de Manuel Bandeira.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Histórias Inventadas



Quando você apareceu, acreditei que tudo iria ser diferente,
Você veio cavalgando em um cavalo branco,
E eu pensei comigo mesmo que príncipes encantado existiam,
E em pouco tempo nós já estávamos juntos,
Fazendo planos que já não eram só meus.
Dava um frio na barriga só de pensar que aquilo não era apenas palavras,
Era eu e você e nossos sonhos.
Lembro-me do quanto eu te queria perto de mim,
Parecia que o perto não era suficiente,
Quando saía para trabalhar eu ficava contando as horas para que voltasse.
E quando eu sabia que estava chegando, era como se o meu mundo ficasse completo.
Aos poucos eu te contei os meus segredos,
Meus medos,
Minhas ambições.
E com poucos meses você já conhecia mais de mim do que o meu próprio diário.
Parecia que nossas almas estavam entrelaçadas desde a antiguidade,
Mesmo com a maldade do mundo nosso amor continuava vivo.
Mas na noite passada acordei dentro de um manicômio,
Me disseram que essas histórias são fruto de minha imaginação,
Eu não quero acreditar nisso, pois é a única coisa que ainda me mantem vivo,
Lúcido,
Ou louco.
Mas com tantos remédios eu estou começando à acreditar neles,
Estou me perdendo no que era real e no que eu inventei,
Da minha janela com grades eu olho o sol lá fora e fico imaginando que um dia virá me buscar.
Penso no meu diário em cima da cabeceira de minha cama,
Cama que nós fizemos amor,
E quando a noite chega eu me sinto tão sozinho aqui,
Viro de um lado e o sono não vem,
Mudo e nada acontece.
Só te peço uma única coisa:
Se tiveres sido real, me tire dessa loucura, pois não sei se isso são coisas inventadas ou reais.
Sinto que é uma história complicada e eu nem sei o porquê.
Eu sei que você está em algum lugar lá fora,
Em algum lugar longe.


Texto: Histórias Inventadas,
De: Diógenes Ramos.


Livros - Diógenes Ramos

  • Cicatrizes - Toda Forma de Amor
  • No Meu Céu
  • O Violinista
  • O Bailarino